Home › Fóruns › Fórum do Grupo de Leitura – Nêgo Bispo “A Terra Dá, A Terra Quer” › I Encontro – Fórum do Grupo de Leitura “Nêgo Bispo – A Terra Dá, A Terra Quer”
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Convidado
Neste encontro inicial, partilhamos um vídeo com a fala de Nêgo Bispo e abrimos um primeiro espaço de escuta, aproximação e troca de impressões sobre sua trajetória, seu pensamento e sua obra. Este tópico permanece aberto como convite para que as pessoas participantes sigam partilhando percepções iniciais, comentários, questões e ressonâncias provocadas por esse primeiro contato com “A Terra Dá, A Terra Quer“.
Paula Renata Santos de Paiva
ConvidadoO livro “A Terra Dá, A Terra Quer”, de Nego Bispo, apresenta, já nos três primeiros capítulos, uma ruptura profunda com as formas tradicionais de pensar a relação entre ser humano e natureza. O autor não escreve apenas para informar, mas para provocar deslocamentos: ele convida o leitor a desaprender lógicas coloniais e reaprender com os saberes ancestrais dos povos da terra.
No primeiro capítulo, percebe-se um movimento de reposicionamento ético. A terra não é tratada como recurso, mas como entidade viva, que oferece e, ao mesmo tempo, exige respeito, cuidado e reciprocidade. Nego Bispo constrói uma crítica consistente ao modelo capitalista de exploração, evidenciando como essa lógica rompe ciclos naturais e compromete a continuidade da vida. Aqui, o verbo “dar” não é sinônimo de disponibilidade infinita, mas de generosidade condicionada à relação de equilíbrio.
No segundo capítulo, o autor aprofunda a ideia de pertencimento. Ele desloca o ser humano do centro e o reinsere como parte de um sistema maior, onde tudo está interligado. Esse pensamento dialoga fortemente com epistemologias afro-indígenas, nas quais viver não é dominar, mas coexistir. A terra, nesse sentido, ensina — e esse ensinamento não se dá por livros formais, mas pela experiência, pela oralidade e pela convivência comunitária.
Já no terceiro capítulo, emerge uma dimensão política mais explícita. Nego Bispo denuncia os impactos da colonialidade sobre os territórios e os modos de vida tradicionais, mostrando como o rompimento com a terra é também um rompimento com a memória, com a identidade e com a autonomia dos povos. Ao mesmo tempo, ele aponta caminhos de resistência, ancorados na coletividade, na ancestralidade e no cuidado com o território.
De forma geral, esses capítulos iniciais constroem uma base conceitual potente: a terra não é objeto, é sujeito de relação. O livro propõe uma ética da reciprocidade que desafia diretamente os modelos educacionais e sociais hegemônicos. Para o campo da educação — especialmente quando pensamos em práticas que valorizam saberes afro-brasileiros e indígenas —, a obra se torna um chamado à transformação curricular, convidando a escola a reconhecer a terra como mestra e os povos tradicionais como guardiões de conhecimentos fundamentais para a continuidade da vida.
Paula Renata Santos de Paiva
ConvidadoNo livro que brota da terra,
com saber ancestral no pé,
fala forte Nego Bispo,
com a verdade que o chão é.
“A Terra Dá, A Terra Quer”
não é só verso bonito,
é chamado pra escutar
o que o mundo tem escrito.No primeiro ensinamento,
a terra é mãe, não é objeto,
não se vende, não se explora,
se cuida com afeto certo.
Ela dá o que sustenta,
mas também sabe cobrar,
se o homem esquece o respeito,
a vida pode faltar.No segundo, vem dizendo
que ninguém vive sozinho,
tudo dança junto e cresce
no compasso do caminho.
Ser da terra é pertencer,
não mandar nem dominar,
é ouvir cada raiz
e com o tempo aprender a amar.Já no terceiro capítulo,
a denúncia vem ligeira,
mostrando a dor dos territórios
feridos pela maneira
que o poder colonizador
quis calar tradição,
mas o povo resiste firme
com memória e união.Assim canta esse cordel,
com verdade e consciência:
quem escuta a voz da terra
reaprende a existência.
Pois a terra dá sustento,
mas também quer proteção,
e só vive em harmonia
quem cultiva relação. -
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